Km e Km de esperança...

Nesta segunda feira, 23 de Agosto do ano da graça de 1999, o dia começou cedo, como todos os outros aliás; Tímido e peneirado pelas nuvens que seguram o cacimbo, o sol erguia-se no céu. Sete e pouco da manhã e já a Travessa da Cuca fervilhava de actividade. Do lado de fora dos portões eu amealhava a coragem que me levaria a enfrentar mais dez horas de trabalho diário. À frente desses portões passavam também aos pares ou em fila um número incontável de pessoas, quase todas mulheres ou moças, carregadas com enormes fardos, de onde espremem o parco sustento da família, à cabeça. São as kínguilas ou Zungas que compram e vendem de forma ambulante o mais diverso tipo de mercadorias.
Iam desta periferia da cidade, na sua maioria descalça, andando apressadas na rua poeirenta, antes que o calor do sol chegasse, seguiam em direcção ao mercado que fica ainda a mais de dois quilómetros de distância. Dos filhos, sabemos que ficam em casa, os mais crescidos, que os mais pequenos, de meses, as acompanham sempre, colados às costas. Sabe-se lá quantos mais quilómetros traziam nos pés quando passavam à nossa porta.
No meio do grupo de adultos e adolescentes vinham duas crianças, uma aí com os seus dez anos e a outra, estou certo, que não teria completado ainda o sexto aniversário, ambas carregando feixes de lenha maiores do que elas. Seguiam com o passo miudinho que o peso lhes deixava dar. Levavam à cabeça a responsabilidade que alguém lhes tinha posto em cima logo no início de um dia, a horas em que a maioria das outras crianças do mundo civilizado ainda estariam a dormir. Não carregavam o peso dos livros com a sabedoria milenar a caminho da escola, carregavam sim o peso da necessidade, e faziam o percurso que uma outra escola, a da vida, lhes tinha imposto mais de uma hora antes, ainda no escuro de uma noite que deveria ser de sono. Passaram apressadas, cruzando a área à frente do portão com o olhar receoso, interrogando-se com certeza, o que faria ali encostado tão deslocado personagem. Aceleraram o passo, tanto quanto lhes era possível, talvez com medo que eu lhes aliviasse da cruz que carregavam à cabeça.
Depois de se terem afastado mais de uma dezena de metros do portão a mais pequenina voltou-se para traz e olhou-me nos olhos, de frente. Senti-me então como S. Cristóvão; Que sobre mim caia todo o peso dos pecados do mundo.
Não era o peso do feixe de lenha que aquela menina carregava, que lhe fazia tremer as pernas ainda mais magrinhas do que alguns ramos que levava, nem foi esse o peso que senti que o seu olhar me deixou na consciência. Foi outro peso. O peso da fome, o peso das agruras que a ainda tão curta vida já armazenara, o peso das armas que o mundo civilizado fabrica e vende a alguns adultos de cá para alimentar uma luta pelo poder e pelos imensos recursos naturais, onde os maiores derrotados, são o futuro e os sonhos ausentes dos olhos destas crianças que saem cedo do descanso da esperança no nascer de um novo dia, para a dura realidade de ter de carregar com os olhos bem abertos, todo o peso do mundo.

2 Comments:
Por muito que esta terra me castigue não vou deixar de ver a realidade também por este prisma. Espero que me entendas.
Estou há tantos anos afastado fisicamente da nossa Angola que não me parece correcto comentar este texto que no entanto admirei.
Comentá-lo soaria àquelas reportagens televisivas europeias nas quais se lamentam hipocritamente estas crianças, agradecendo o conforto delas viverem lá longe. Pimenta no c_ dos outros é refresco, irmão.
Por isso, prefiro apreciar os teus escritos e brevemente falar-te da minha viagem a Cabo Verde, onde vi uma miséria semelhante, se calhar pior ainda. Nada pude fazer além de lá deixar a roupa que levava. Fiz alguns meninos felizes mas não chega. Quando é que Àfrica acordará da sonolência em que mergulhou depois dos festejos da independência dos seus filhos?
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