06 Fevereiro, 2006

Km e Km de esperança...


Nesta segunda feira, 23 de Agosto do ano da graça de 1999, o dia começou cedo, como todos os outros aliás; Tímido e peneirado pelas nuvens que seguram o cacimbo, o sol erguia-se no céu. Sete e pouco da manhã e já a Travessa da Cuca fervilhava de actividade. Do lado de fora dos portões eu amealhava a coragem que me levaria a enfrentar mais dez horas de trabalho diário. À frente desses portões passavam também aos pares ou em fila um número incontável de pessoas, quase todas mulheres ou moças, carregadas com enormes fardos, de onde espremem o parco sustento da família, à cabeça. São as kínguilas ou Zungas que compram e vendem de forma ambulante o mais diverso tipo de mercadorias.
Iam desta periferia da cidade, na sua maioria descalça, andando apressadas na rua poeirenta, antes que o calor do sol chegasse, seguiam em direcção ao mercado que fica ainda a mais de dois quilómetros de distância. Dos filhos, sabemos que ficam em casa, os mais crescidos, que os mais pequenos, de meses, as acompanham sempre, colados às costas. Sabe-se lá quantos mais quilómetros traziam nos pés quando passavam à nossa porta.
No meio do grupo de adultos e adolescentes vinham duas crianças, uma aí com os seus dez anos e a outra, estou certo, que não teria completado ainda o sexto aniversário, ambas carregando feixes de lenha maiores do que elas. Seguiam com o passo miudinho que o peso lhes deixava dar. Levavam à cabeça a responsabilidade que alguém lhes tinha posto em cima logo no início de um dia, a horas em que a maioria das outras crianças do mundo civilizado ainda estariam a dormir. Não carregavam o peso dos livros com a sabedoria milenar a caminho da escola, carregavam sim o peso da necessidade, e faziam o percurso que uma outra escola, a da vida, lhes tinha imposto mais de uma hora antes, ainda no escuro de uma noite que deveria ser de sono. Passaram apressadas, cruzando a área à frente do portão com o olhar receoso, interrogando-se com certeza, o que faria ali encostado tão deslocado personagem. Aceleraram o passo, tanto quanto lhes era possível, talvez com medo que eu lhes aliviasse da cruz que carregavam à cabeça.
Depois de se terem afastado mais de uma dezena de metros do portão a mais pequenina voltou-se para traz e olhou-me nos olhos, de frente. Senti-me então como S. Cristóvão; Que sobre mim caia todo o peso dos pecados do mundo.
Não era o peso do feixe de lenha que aquela menina carregava, que lhe fazia tremer as pernas ainda mais magrinhas do que alguns ramos que levava, nem foi esse o peso que senti que o seu olhar me deixou na consciência. Foi outro peso. O peso da fome, o peso das agruras que a ainda tão curta vida já armazenara, o peso das armas que o mundo civilizado fabrica e vende a alguns adultos de cá para alimentar uma luta pelo poder e pelos imensos recursos naturais, onde os maiores derrotados, são o futuro e os sonhos ausentes dos olhos destas crianças que saem cedo do descanso da esperança no nascer de um novo dia, para a dura realidade de ter de carregar com os olhos bem abertos, todo o peso do mundo.
 Posted by Picasa

2 Comments:

Blogger Carlota said...

Por muito que esta terra me castigue não vou deixar de ver a realidade também por este prisma. Espero que me entendas.

3:29 PM  
Anonymous Fernandito said...

Estou há tantos anos afastado fisicamente da nossa Angola que não me parece correcto comentar este texto que no entanto admirei.
Comentá-lo soaria àquelas reportagens televisivas europeias nas quais se lamentam hipocritamente estas crianças, agradecendo o conforto delas viverem lá longe. Pimenta no c_ dos outros é refresco, irmão.
Por isso, prefiro apreciar os teus escritos e brevemente falar-te da minha viagem a Cabo Verde, onde vi uma miséria semelhante, se calhar pior ainda. Nada pude fazer além de lá deixar a roupa que levava. Fiz alguns meninos felizes mas não chega. Quando é que Àfrica acordará da sonolência em que mergulhou depois dos festejos da independência dos seus filhos?

6:10 PM  

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