Ontem, em conversa com um amigo sobre questões relacionadas com a descolonização e suas consequências sociais nos dias de hoje, percebemos que existem e resistirão ainda por muitos anos um número considerável de preconceitos resultantes do binómio colonizado/colonizador, mal resolvidos.Sendo uma questão que em todos nós angolanos de todos as raças deixou marcas indeléveis no corpo e na alma, trouxe do fundo do meu baú este texto, violando a regra que me impuz de não pessoalizar este espaço que pretende ser de reflexões, ainda que pessoais, mas de caracter generalista, inserido nas “Crónicas da Terra Vermelha” uma compilação de textos que retratam a viagem que iniciei lá pelo ano de 1998, em busca das minhas origens, suas decepções seus paradigmas e a inevitável tomada de consciência de ser uma viagem sem destino.
A tarde despedia-se naquela quinta-feira de principio de Setembro, a rodela laranja escondia-se já por traz dos prédios para mais um dia noutras paragens, e o relógio, acrescentava alguns minutos às 17 horas. Depois de atravessado o Bairro do S. Paulo e o largo do kinaxixe, de carro, descia a rua da missão em direcção à Mutamba e o transito amontoava-se desorganizado em todos os cruzamentos. No rádio, indiferente ao pára – arranca, tocava uma musica já antiga, dos meus tempos de menino. Antiga, pois de velhice não padecem as musicas. Os homens sim, pois a passada larga e irremediavelmente continua do tempo, não perdoa nem mesmo quem disso se tenta esquecer. E com a capacidade de alterar a sequência real do tempo que só as canções possuem, fez-me regressar à minha infância e dei por mim a correr, de calções, pelas ruas de Benguela. Cidade que tão bem me acolheu quando, sem preocupações, sem causa ou ideal, e só pela força e vontade de minha mãe, nasci. E eu corria, corria para um futuro que julgava ser de glória, de paz e concórdia entre os homens, que ainda acreditava serem de boa vontade. Aquela insensatez própria das crianças. Daquela Benguela velhinha, veio-me então à memória a Praia Morena, as belíssimas paragens da Baía Azul e Caotinha, o cheiro do mar, do peixe, os tambarinos, as acácias rubras, as mangas e as bananas do Cavaco – Que poder reprodutivo teria aquele rio que dava a tudo quanto banhava, aquele doce, aquela cor – Lembrei-me ainda, de como no tempo frio, preferíamos o passeio, abrigado, pelos Bambus da Catumbela, ao invés das idas à praia mais próprias do tempo quente, e também de alguns colegas do colégio Eugénio de Castro.
Não que tenha saudades do tempo do - xê minino, não fala política – Nem da altura em que qualquer sinal, por mais tímido que fosse, de nacionalismo, era reprimido pelas, já então gastas, ideias da colonização. Não que ache que não tivéssemos direito a uma Angola livre e independente, e claro que tínhamos o direito. Mais. O dever de empurrar o tempo na sua já irreversível caminhada para um futuro sem grilhões. Claro.
O que já não me parece tão claro nem tão legitimo è que nesse percurso nos tenhamos esquecido de preservar o que com tanto suor e sangue, muito boa gente nos deixou como legado, como herança. Não soubemos nem quisemos nos preocupar com isso, ao contrario, julgámo-nos senhores absolutos, irredutíveis, e donos das nossas razões, puxámos cada um a si o que não pode ser de ninguém, o que tínhamos como obrigação fazer crescer para que de nós sentissem orgulho as gerações vindouras.
Ora, daquela Benguela orgulhosa, virada para fora, porque situada na orla do Atlântico, porque Capital de Província com o mesmo nome, ela mesmo esplendorosa desde as praias do Alexandrino aos contrafortes das Gandas e dos Balombos, rica das montanhas do Bocoio aos eucaliptos do Alto-Catumbela, resta-nos uma cidade sitiada na sua solidão, privada que está das suas vias de acesso que, como veias, lhe permitia transbordar-se, uma cidade gasta, usada, vendida ou trocada como se de mercadoria se tratasse e não como algo detentor de um passado com um historial, tanto social como economicamente vital para este país. Enfim uma cidade cansada de nos servir, a nós que só soubemos tirar dando-lhe tão pouco em troca.
AH! Minha Cidade-Mãe sabes que mais? Sinto vergonha por não te ter merecido, por não te ter acompanhado no teu doloroso percurso, por não te ter amparado na tua prematura velhice, e hoje, bem feito para mim, è a minha infância que está de luto.
FJR. Luanda, 09/99

4 Comments:
Um colo e uma festa na cabeça para ti. E bjinhos também.
Excelente trabalho Fernando.
Fico contente por teres levado o projecto para a frente. Angola merece este tipo de abordagem.
Podes contar com a minha atenta visita.
Forte Abraço para a terra vermelha
Magnífico.
Porque será que o "homo sapiens" não consegue virar páginas do livro da vida sem menosprezar os capítulos anteriores? Não será o nosso futuro tanto mais risonho quanto mais preparados estivermos pelo nosso passado? A guerra é desculpa para tudo o que de mau aconteceu durante todos estes anos?
Só nos resta recuperar 30 anos de atraso. Sabes Angola, enquanto te minavam o corpo, o mundo pulou e avançou. Aproveita bem a tua convalescença.
Um abraço, amigo.
Agora também eu estou de luto. Mais colo, mais festas e abraços.
Enviar um comentário
<< Home