30 março, 2006

Parabens

Nota: A melhor prenda que até hoje recebi, oferecida pelo maior tesouro que encontrei neste caminho que agora prefaz quarenta anos de distancia.

Obrigado por tudo
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Parabéns ao menino de Benguela que nasceu para a musica.
Àquele que mandaram sentar-se na última fila da sala de aulas
ao lado do seu “parente”
E ao mesmo que se perdeu da mãe no Rossio e que se enganou a
comprar laranjas


Parabéns ao jovem das malditas botas mexicanas
Àquele que fugiu à tropa e o foram buscar a casa.
E ao mesmo das viagens de comboio intermináveis e que
se esqueceu de voltar do Brasil por causa daquele amor.


Parabéns ao homem, amigo, pai, filho, tio, irmão, que sempre
cuidou daqueles que ama.
Àquele que se voltou a apaixonar quando pensava que já tinha
passado esse tempo.
E ao mesmo com quem tenho o prazer de partilhar a minha vida.

De mim para ti do fundo do coração
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07 março, 2006

Louco?

E assim se foram todos os puros
Se foram para um lugar
Onde sonhar, é obrigatório
Onde ser, não é pecado
Onde mentir, se morre
Onde querer, se deve e
Onde viver, se pode


E assim se foram!!

Todos os puros
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06 fevereiro, 2006

Km e Km de esperança...


Nesta segunda feira, 23 de Agosto do ano da graça de 1999, o dia começou cedo, como todos os outros aliás; Tímido e peneirado pelas nuvens que seguram o cacimbo, o sol erguia-se no céu. Sete e pouco da manhã e já a Travessa da Cuca fervilhava de actividade. Do lado de fora dos portões eu amealhava a coragem que me levaria a enfrentar mais dez horas de trabalho diário. À frente desses portões passavam também aos pares ou em fila um número incontável de pessoas, quase todas mulheres ou moças, carregadas com enormes fardos, de onde espremem o parco sustento da família, à cabeça. São as kínguilas ou Zungas que compram e vendem de forma ambulante o mais diverso tipo de mercadorias.
Iam desta periferia da cidade, na sua maioria descalça, andando apressadas na rua poeirenta, antes que o calor do sol chegasse, seguiam em direcção ao mercado que fica ainda a mais de dois quilómetros de distância. Dos filhos, sabemos que ficam em casa, os mais crescidos, que os mais pequenos, de meses, as acompanham sempre, colados às costas. Sabe-se lá quantos mais quilómetros traziam nos pés quando passavam à nossa porta.
No meio do grupo de adultos e adolescentes vinham duas crianças, uma aí com os seus dez anos e a outra, estou certo, que não teria completado ainda o sexto aniversário, ambas carregando feixes de lenha maiores do que elas. Seguiam com o passo miudinho que o peso lhes deixava dar. Levavam à cabeça a responsabilidade que alguém lhes tinha posto em cima logo no início de um dia, a horas em que a maioria das outras crianças do mundo civilizado ainda estariam a dormir. Não carregavam o peso dos livros com a sabedoria milenar a caminho da escola, carregavam sim o peso da necessidade, e faziam o percurso que uma outra escola, a da vida, lhes tinha imposto mais de uma hora antes, ainda no escuro de uma noite que deveria ser de sono. Passaram apressadas, cruzando a área à frente do portão com o olhar receoso, interrogando-se com certeza, o que faria ali encostado tão deslocado personagem. Aceleraram o passo, tanto quanto lhes era possível, talvez com medo que eu lhes aliviasse da cruz que carregavam à cabeça.
Depois de se terem afastado mais de uma dezena de metros do portão a mais pequenina voltou-se para traz e olhou-me nos olhos, de frente. Senti-me então como S. Cristóvão; Que sobre mim caia todo o peso dos pecados do mundo.
Não era o peso do feixe de lenha que aquela menina carregava, que lhe fazia tremer as pernas ainda mais magrinhas do que alguns ramos que levava, nem foi esse o peso que senti que o seu olhar me deixou na consciência. Foi outro peso. O peso da fome, o peso das agruras que a ainda tão curta vida já armazenara, o peso das armas que o mundo civilizado fabrica e vende a alguns adultos de cá para alimentar uma luta pelo poder e pelos imensos recursos naturais, onde os maiores derrotados, são o futuro e os sonhos ausentes dos olhos destas crianças que saem cedo do descanso da esperança no nascer de um novo dia, para a dura realidade de ter de carregar com os olhos bem abertos, todo o peso do mundo.
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23 janeiro, 2006

Pudor, Precisa-se...

Mário Soares à revista alemã "Spiegel" em 1974 a propósito dos ideais nacionalistas de alguns colonos

Passadas que estão as eleições presidenciais em Portugal, conhecidos os resultados, e movido por este eterno cordão umbilical que por condição nos une, penso que posso e agora sem o peso de incorrer em qualquer tipo de ingerência, tecer alguns comentários que me parecem obrigatórios.
Digerida a perplexidade que me invadiu, quando soube que o Sr. Dr. Mário Soares se tinha candidatado, ciente da conduta pouco recomendável que este sempre esgrimiu em assuntos relacionados com todo o processo de descolonização por um lado, e com a penosa viagem que nos obrigámos a fazer durante estes últimos trinta anos, para a qual concorreram as suas conhecidas convicções por outro, não esquecendo o nefasto contributo de João Soares para esta imagem que todos nós Angolanos e Luso Angolanos temos deste clã, venho congratular-me aqui, pela lição de presença de espírito e de maturidade politica que o povo Português, de quem me orgulho de ter algumas das minhas mais importantes costelas, deu a todos os que por deficiente memória, obscurantismo, ou ainda pela falta de visão geo-estratégica, apoiaram esta inqualificável candidatura.
Falido nos ideais, trôpego nos argumentos, e com a demonstrada falta de educação democrática, arrastou-se estoicamente, diga-se em abono da verdade, pelos debates e confrontos políticos, onde preferiu apedrejar alguns dos candidatos, enquanto ignorava os restantes, quando o que se lhe pedia seria uma explanação clara dos objectivos, posturas e ideias com que pretenderia exercer o mais alto cargo da Nação.
Não seria concerteza necessário abrir o baú das recordações, para que à nossa memória fossem refrescados episódios pouco dignificantes para um politico de renome como o Sr. Dr. Soares, como o apoio incondicional e subterrâneo que sempre deu antes e depois das eleições de 1992 ao Dr. Jonas Savimbi, só igualado pelo igualmente duvidoso clã Bush, contrariando todos os indicadores divulgados pela organização que em tempos dirigiu, a Internacional Socialista,
Pouco abonatória para o clã Soares é ainda a tão suspeita viagem de apoio feita por João Soares, sem qualquer autorização do governo legitimo da República de Angola, à Jamba, região do planalto central ocupada pelo então exército rebelde (FALA), que culminou com o aparatoso acidente de aviação que quase lhe ceifou a vida de que todos nos lembramos.
O desrespeito à bandeira nacional demonstrado aquando da sua chegada a França forçado pelo exílio, é outro infeliz episódio até hoje não completamente explicado por este estadista.

Assim é com alegria que deixo aqui os meus sinceros parabéns à resposta em uníssono com que o povo Português brindou, desta vez, tão bizarra candidatura.

Parabéns Portugal!
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16 dezembro, 2005

Bem haja, Pai Natal

Texto extraído das "Crónicas da Terra Vermelha"

De esperança num futuro melhor, que bem o mereciam estas gentes, de um el dourado possível, porem adiado, de famílias reunidas na sua mais incompleta forma, pois em todas se chora a falta de alguém de quem se desconhece o paradeiro ou sequer se è parte dos vivos ou se já engrossa as fileiras dos que pela fome consumidos ou por um qualquer desastre, costume fatal em tempos de guerra preenchidos, já terão recebido a visita da morte, e de mesas repletas de nada, se faz o Natal em quase todas as casas deste país. Digo quase, que de fartura, alguns, poucos se encharcam sem que por isso peçam desculpa aos demais. Esses sim, muitos, quase todos.

Da imagem, hoje para mim pertença do passado, de um Natal branco, pois de neve coberto e de um pai natal gordo e barbudo com o, já habitual e sempre novo, fato vermelho, em seu trenó puxado por umas quantas renas igualmente bem alimentadas, não por serem animais de muito trabalho, que de uma só jorna se completa a sua anual ocupação, mas por ser de vontade de seu dono que tal como a ele, não deixa que lhes falte provisão, resta-me hoje uma realidade bem diferente. A de um Natal escaldante, que de tanto e tão forte calor, pouca diferença faria se o celebrassemos em pleno inferno, e de um pai natal, que talvez por andar a pé e de certeza descalço, pois só assim se explica tão poucas casas visitar, se confunde com um qualquer mendigo que se trenó tivesse, seviria com certeza como transporte para as suas esfomeadas renas e que depois de acomodados os animais, para o movimentar, teria que o arrastar ele próprio, secando assim o que resta das suas já tão castigadas forças. E se mais comparações fossem feitas com o seu colega do polo norte, em todas este saíria a perder. Correndo-se até o risco que de vergonha ou desgosto, que è diferente patologia, não mais voltasse a cumprir a sua eterna tarefa. A de, por esta altura do ano, distribuir, por onde lhe è possivel chegar, a sua mão cheia de nada. E se o continua a fazer sem mancha de erro próprio, embora leve já perdida a inocencia, que não è possivel caminhar de mãos dadas com a desgraça, dele e dos outros, e continuar como antes, è por saber que apesar dos pesares, ele è um Pai Natal. E que pena tenho eu deste pai natal. E è desta farta escaces, se è que algum sentido resta a estas palavras assim emparelhadas, se recheia esta quadra Natalicia, que por alguns acharem ser a derradeira, que a passos largos se aproxima o fim do mundo, se torna como se da expiação de todos os pecados se tratasse, julgando que talvez assim cheguem ao dia do julgamento com menos contas por ajustar. Mas para desconsolo destes e alegria dos restantes, o novo ano chegou prometendo mundos e fundos, enebriando quem nesta noite, que tem como particularidade a capacidade de servir duplamente, despedindo-se e dando as boas vindas a dois anos, distando estes, entre eles, um século, e hà até quem diga um milénio, e que por capricho de uma invenção a que chamámos calendário a enche de um significado especial, se esquece de que o preço que teremos que pagar por não se ter findado o mundo, è o facto de que para o ano os que, não sei se por ventura ou desventura, lá chegarem, terão que se confrontar com o, quem sabe mais descalço, que de um ano mais velho isso temos a certeza, tal pai natal que nos coube em sorte. Enfim.

Quando chegará, Senhor, o dia em que virás até nós para reconheceres os teus erros perante os homens.

FJR. Luanda, 01/00

23 novembro, 2005

Sobre as palavras

Rio Dande - Katary

O cacimbo despedia-se apressado como se estivesse atrasado para um inadiável encontro noutras paragens, a manhã tinha chegado havia alguns minutos e as sombras da noite perfilavam-se para a rendição. Da janela da casa de banho, enquanto alinhavava os últimos pormenores daquele desatino matinal, via a claridade invadir o quintal por trás do pé de maracujá que depois da estiagem se preparava para me inundar o paladar com os novos rebentos. Fui ao armário, e para um dia como o que se avizinhava, escolhi aquele conjunto de palavras que só usava em dias especiais, certifiquei-me de que não continham erros causados pelo tempo de clausura, se a métrica estava perfeita, se a fonética condizia, dei ainda uma vista de olhos pelos possíveis desarranjos da já usada sintaxe concluindo que tudo estava em ordem, calcei os melhores verbos e de volta à casa de banho, perfumei-me com as mais ricas rimas que conhecia, ajeitei a gramática, com as mãos dei um ultimo jeito às ideias onde as brancas teimavam em se sobrepor aquelas madeixas, poucas, que ainda me lembravam a juventude e saí para a rua. O ar trazia-me aromas frescos a Fernando Pessoa e Florbela Espanca aliás próprios daquela altura do ano. Apressado e com o peito a rufar de emoção, atravessei o quintal enfiei-me no carro sem cumprimentar o cão que me olhava desconfiado, provavelmente interrogando-se pela pressa pouco usual do meu passo – onde irá tão bem ornamentado –
Do caminho, pouco recordo, toda a minha atenção centrava-se no objectivo que me levara a estar tão atento àquela diferente manhã. Ao chegar, lá estavas, pronta para avaliar todos os tons e matizes com que me tinha enfeitado qual júri de um desfile de alta-costura. Mas eu tinha tudo bem ensaiado e apesar do friozinho no estômago próprio de uma antestreia, quando me encaminhava na tua direcção, os passos pareciam decisivos e firmes. Naquela manhã tudo me parecia novo e assustador, mesmo aquele “olá” mecânico tantas vezes repetido, tropeçou na garganta, todos sabemos que dizer facilmente até as coisas mais fáceis de serem ditas não é nada fácil, ou melhor, é algo muito difícil entre as coisas mais difíceis, respirei fundo, fiz a derradeira reflexão, e se alguma coisa mais eu disse, ninguém ouviu, pois sem saber porquê, saí do carro, voltei a atravessar o quintal e fechei-me em casa, mudo.
Preciso arranjar palavras novas ou então nunca mais falar, a não ser de mim para mim, por toda a eternidade. Com estas usadas e velhas não me entenderias.
Desde então falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez, também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente.

Haverá ainda salvação? É-me difícil avaliar.
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19 novembro, 2005

O Pior

Yona ao fim da tarde

Li um dia destes um texto que pelo seu colorido, me levou a viajar pelas dificuldades várias, terríveis até, por que atravessam as nossas crianças, por inevitável consequência o nosso futuro, as nossas esperanças, e a morte prematura de um país e de um povo, caso não se tomem medidas urgentes para inverter esta realidade.
Não pude deixar de me lembrar que da boca do fundador desta nova nação um dia se ouviu e se fez palavra de ordem:

“O mais urgente é resolver os problemas do povo”

Fugaz é a memória dos homens e desconcertante a sua insensibilidade

O pior o pior

No meu país tudo é cor de tijolo
O sol ao fim da tarde
A terra
O fruto da palmeira

Que fosse esse cenário cor de tijolo,
A brancura das t-shirts
As escolas sem carteiras
O nosso pior mal.

Pior pior
É que nesse cenário cor de tijolo
Se cruzam personagens cor de tristeza,
Que vestem o futuro com t-shirts cor de fome
E escrevem sobre os joelhos histórias cor de morte.

Pior pior
É que num país de cores quentes como o meu,
Ainda não descobrimos, como pintar o futuro dos nossos filhos.

Pior pior
É que num país de cores quentes como o meu
Ainda não conhecemos a cor do afecto,
A tonalidade do respeito pelas crianças,
Ou sequer os tons, ainda que já esbatidos, da esperança.

Mas o pior
O pior de tudo
É o pouco que nos importamos com isso

FJr 11/05
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