Texto extraído das "Crónicas da Terra Vermelha" De esperança num futuro melhor, que bem o mereciam estas gentes, de um el dourado possível, porem adiado, de famílias reunidas na sua mais incompleta forma, pois em todas se chora a falta de alguém de quem se desconhece o paradeiro ou sequer se è parte dos vivos ou se já engrossa as fileiras dos que pela fome consumidos ou por um qualquer desastre, costume fatal em tempos de guerra preenchidos, já terão recebido a visita da morte, e de mesas repletas de nada, se faz o Natal em quase todas as casas deste país. Digo quase, que de fartura, alguns, poucos se encharcam sem que por isso peçam desculpa aos demais. Esses sim, muitos, quase todos. Da imagem, hoje para mim pertença do passado, de um Natal branco, pois de neve coberto e de um pai natal gordo e barbudo com o, já habitual e sempre novo, fato vermelho, em seu trenó puxado por umas quantas renas igualmente bem alimentadas, não por serem animais de muito trabalho, que de uma só jorna se completa a sua anual ocupação, mas por ser de vontade de seu dono que tal como a ele, não deixa que lhes falte provisão, resta-me hoje uma realidade bem diferente. A de um Natal escaldante, que de tanto e tão forte calor, pouca diferença faria se o celebrassemos em pleno inferno, e de um pai natal, que talvez por andar a pé e de certeza descalço, pois só assim se explica tão poucas casas visitar, se confunde com um qualquer mendigo que se trenó tivesse, seviria com certeza como transporte para as suas esfomeadas renas e que depois de acomodados os animais, para o movimentar, teria que o arrastar ele próprio, secando assim o que resta das suas já tão castigadas forças. E se mais comparações fossem feitas com o seu colega do polo norte, em todas este saíria a perder. Correndo-se até o risco que de vergonha ou desgosto, que è diferente patologia, não mais voltasse a cumprir a sua eterna tarefa. A de, por esta altura do ano, distribuir, por onde lhe è possivel chegar, a sua mão cheia de nada. E se o continua a fazer sem mancha de erro próprio, embora leve já perdida a inocencia, que não è possivel caminhar de mãos dadas com a desgraça, dele e dos outros, e continuar como antes, è por saber que apesar dos pesares, ele è um Pai Natal. E que pena tenho eu deste pai natal. E è desta farta escaces, se è que algum sentido resta a estas palavras assim emparelhadas, se recheia esta quadra Natalicia, que por alguns acharem ser a derradeira, que a passos largos se aproxima o fim do mundo, se torna como se da expiação de todos os pecados se tratasse, julgando que talvez assim cheguem ao dia do julgamento com menos contas por ajustar. Mas para desconsolo destes e alegria dos restantes, o novo ano chegou prometendo mundos e fundos, enebriando quem nesta noite, que tem como particularidade a capacidade de servir duplamente, despedindo-se e dando as boas vindas a dois anos, distando estes, entre eles, um século, e hà até quem diga um milénio, e que por capricho de uma invenção a que chamámos calendário a enche de um significado especial, se esquece de que o preço que teremos que pagar por não se ter findado o mundo, è o facto de que para o ano os que, não sei se por ventura ou desventura, lá chegarem, terão que se confrontar com o, quem sabe mais descalço, que de um ano mais velho isso temos a certeza, tal pai natal que nos coube em sorte. Enfim. Quando chegará, Senhor, o dia em que virás até nós para reconheceres os teus erros perante os homens. FJR. Luanda, 01/00 |